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Iniciação e Xamanismo – Entrevista a Gilberto Lascariz

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Iniciação e Xamanismo – Entrevista a Gilberto Lascariz

Mensagem  Antoniosag em Sex Abr 26, 2013 9:42 pm

A propósito do workshop a realizar este fim-de-semana na Casa do Fauno, em Sintra, o escritor e ensaísta Gilberto Lascariz concedeu ao nosso site uma extensa entrevista. Sendo raro encontrar nos meios esotéricos autores cuja claridade de ideias e referências seja muito consistente e capaz de ajudar outros a descobrir as suas, não podíamos deixar escapar esta oportunidade de conhecer e dar a conhecer o pensamento de Lascariz.
Biografia breve

Nasceu em Caracas, Venezuela, vindo desde muito cedo a viver em Portugal. Formou-se em Direito, na Faculdade de Direito de Lisboa, ao mesmo tempo que seguia Língua e Cultura Sânscrita na Universidade Nova de Lisboa. Desde muito cedo esteve envolvido em várias sociedades esotéricas de carácter rosacruciano e maçónico, tendo tomado votos na Tradição Nyngma-Pa do Budismo Tibetano. A sua envolvência com o Wicca Tradicional na Tradição Alexandriana a partir de 1982, associado ao seu envolvimento com a Antroposofia, despertou-o para a necessidade de desenvolver métodos meditativos e rituais que permitissem uma abordagem esotérica da Bruxaria Iniciática e Neo-Pagã em antítese à sua superficialização New Age. Em 1989 criou em Portugal o Coventículo TerraSerpente de Wicca Alexandriana e lançou a Confraria Sol-Negro, uma organização artística dedicada à renovação estética das artes sob o ponto de vista do esoterismo neo-pagão, na sua acepção evoliana. As suas palestras nas “Conferências do Inferno”, realizadas nos anos 80/90 no Porto, alertaram-no para a necessidade de registar em livro o seu pensamento esotérico e neo-pagão. Publicou os livros Mãe Canibal, O Culto da Bruxaria no Artista e Escritor Austin Osman Spare e traduziu e prefaciou o livro de Ronald Huton, Os Xamãs da Sibéria. Em 1999 criou o Projecto Karnayna, uma organização que visa fornecer instrução esotérica na perspectiva do Neo-Paganismo sendo o primeiro autor a fazer workshops de Wicca em Portugal, tal como é hoje praticado por Janet Farrar e Vivianne Crowley. O magazine francês de cultura gótica Elegy Ibérica considerou-o em 2006 como sendo a figura mais importante do pensamento esotérico neo-pagão em Portugal. Na Zéfiro, publicou as obras Ritos e Mistérios Secretos do Wicca, Deuses e Rituais Iniciáticos da Antiga Lusitânia e Quando o Xamã Voava. É também autor do posfácio de O Chamado dos Velhos Deuses, de Nigel Jackson, e faz parte da direcção editorial de Mandrágora – O Almanaque Pagão, tendo coordenado a edição de 2009, sob o tema “Usos e Costumes Mágicos da Lusitânia”.
Entrevista

- Como se pode definir o Xamanismo para alguém que tem dele uma ideia limitada?

O xamanismo stricto sensu é uma experiência visionária muito semelhante ao sonho, para termos um termo simplista de comparação, mas vivida em estado alterado de consciência, cuja característica essencial é se basear numa jornada aos Mundo dos Ancestrais e ao Mundo dos Deuses em busca de Conhecimento. A natureza desse conhecimento pode variar desde a procura de uma solução curativa até à procura de uma resposta não racional de carácter gnósico. A jornada xamânica em êxtase, para utilizar uma expressão usada no contexto do xamanismo avançado, é baseada habitualmente numa concepção cosmológica tripartida do mundo cósmico, visível e invisível, que é tributária da natureza tripla da alma humana. Esta prática espiritual, no sentido em que a sua essência é estabelecer uma aliança de cooperação com os Espíritos e os Devas da Natureza, é considerada a mais ancestral da humanidade. A cosmologia é usada como um mapa do Mundo Imaginal, como diria Henri Corbin, semelhante aos mapas usados pelos egípcios e pelos órficos para orientar o percurso da alma na sua jornada pelo mundo da morte e que vieram a se tornar mais tarde modelos das “viagens” iniciáticas de carácter transfigurador. A sua função é, assim, orientar as jornadas das visões e contactar com forças ancestrais e divinas. Neste sentido o Xamanismo é uma arte visionária e sapiencial que precede historicamente os relatos homéricos da viagem mítica de Odisseu ou a de Orfeu ao Hades, assim como as viagens medievais dos Sufis no Mundo Imaginal.

- Há muitas diferenças entre as tradições xamanismo do Norte da Europa e Ásia e o centro e sul-americano?

A fenomenologia da experiência xamânica é universal, seja ela vivida no Tibete, na América Central, numa aldeia das Planícies Americanas ou na Sibéria, seja ela feita hoje numa floresta das Montanhas Rochosas ou tenha sido feita há 16000 anos no interior da Caverna de Trois Fréres, em Lascaux, pois ela é criada pela mesma estrutura cerebral e segue os mesmos mitologemas. O Xamanismo não é uma construção abstracta nem uma criação fantasiosa e em todo o mundo encontramos o mesmo modelo fenomenológico. Isso acontece porque é enxertado na possibilidade cognitiva do nosso cérebro funcionar para além de nossos códigos operatórios racionais. No entanto, cada cultura mágico-religiosa tem tendência a colorir a experiência xamânica conforme as suas ideologias culturais e a preferir formas diferentes de a induzir, seja pela dança cerimonial, o tormento ritual, o isolamento sensorial ou o uso de enteogénico, por exemplo. Na maior parte delas o segredo do sucesso está na exaustão física levada ao extremo, que desencadeia a produção de morfinómanos no cérebro e a floração de uma nova maneira de apreender e ver o mundo. A maior parte das tradições xamânicas na América do Norte eram baseadas em processos de privação sensória no ermo da paisagem sagrada durante meses, habitualmente no cimo de uma montanha, até que o Ancestral ou o Espírito Totémico lhe aparecesse em visões, enquanto as da América do Sul, tal como as conhecemos hoje, são baseadas na indução de substâncias alucinogénicas no seio mais remoto das florestas tropicais. O exemplo mais perfeito que conhecemos nos mitos europeus terá sido o de Merlin e o de Odin, que nos mitos célticos e germânicos exemplificam processos de transformação da alma de carácter xamânico que teriam subsistido até ao séc. V EV na Bretanha ou séc. XI EV na Escandinávia, cuja conclusão é a emersão da personalidade polissémica do Xamã.

- O xamanismo está ligado no imaginário popular à ingestão de substâncias alteradoras da consciência. Essa imagem é correcta? Para ser Xamã é necessário fazer coisas ilegais?

A relação criada entre substâncias psicotrópicas e o xamanismo na forma popular como ela é hoje estabelecida, isto é, de que o seu uso permite libertar em qualquer pessoa uma experiência mística de carácter xamânico, é muito recente, tem pouco mais de quarenta anos. É um mito criado pela cultura do facilitismo new age, para quem a experiência mística era considerada ser acessível a qualquer pessoa. Mas a investigação antropológica das escolas americanas, seguidoras de modelos participativos de investigação, tem um papel de responsabilidade nisso pela forma como se deixou fascinar pelo uso de psicotrópicos, confundindo espiritualidade com alucinações. São duas realidades diferentes mas que por vezes são muito semelhantes. Mas só isso. Os casos que conhecemos da investigação antropológica referem-se à América Central e do Sul e como bem defendeu Michael Harner são fenómenos residuais em relação ao resto do mundo. Não se podia tomar uma pequena fracção do continente americano, onde os indígenas se drogavam e acreditavam que falavam com seus Deuses, como sendo uma lei geral para o resto do universo. Mas fez-se isso e isso teve um efeito negativo no Xamanismo. Não está provado de forma alguma, por exemplo, que o uso de psicotrópicos fosse generalizado na Sibéria ou na América do Norte ou mesmo na Ásia onde existem poderosas tradições xamânicas. Contudo, é preciso lembrar que as práticas xamânicas mais ancestrais se preservaram no seio da Bruxaria Visionária durante a Idade Média até á Contra-Reforma, como admite Carlo Ginzburg e o próprio Michael Harner, e que se baseavam numa viagem visionária em transe para o Sabat, equivalente ao Pleroma dos gnósticos cainitas, carpocratianos e naasenos. Ora muitos destes êxtases eram induzidos com ervas alucinatórias, como poderá ter sido o caso da bruxa escocesa Isobel Gowdie. No entanto sabe-se que esta não era a regra. Muitos outros casos como o do Rev. Robert Kirk e Thomas de Rhymer podem ter consistido apenas na sobrevivência de processos atávicos de clarividência. Ainda hoje a Bruxaria Tradicional (não se confunda Bruxaria Tradicional com Wicca) tem cuidado em aceitar apenas pessoas com este tipo de disposição atávica. No século dezanove há também relatos pontuais de uso de psicotrópicos na Sibéria, mas esquece-se que também é realçado que era usado apenas numa situação extrema de ausência de xamãs tradicionais. Isso significa que o uso de psicotrópicos ou enteogénicos era usado apenas como último recurso, quer seja no caso de iniciações falhadas quer no caso de embotamento psíquico e espiritual. De forma alguma tem a estrutura e consistência que os processos em transe lúcido do xamanismo tradicional.

- Há uma certa noção de ruptura com o mundo em alguns rituais xamânicos. Podem esses rituais ajudar o xamã a conectar-se com a (sua) natureza?

O antigo xamanismo colocava o xamã num processo de transformação que o levava a uma ruptura com o mundo tal como ele é estabelecido pelas normas estabelecidas de normalidade e de consenso perceptivo e cultural. Todo o seu processo iniciático pretendia libertá-lo do confinamento daquilo que chamamos vulgarmente humanidade. Isso tinha um custo social: o xamã era um excluído e um exilado do mundo, envolvido de tabus tal como o Caim bíblico. Na sua solidão ele era um misto de louco e de epifania divina. Lembremos porém que a normalidade tal como a definimos na vida corrente é uma convenção ideológica e em essência o mundo do qual ela nasce é uma ilusão quando vista na perspectiva do Todo. Embora não saibamos o que é o Todo, que está para além de nossa apreensão racional, poderia dizer mesmo assim, segundo a minha experiência e a Tradição que pratico, que toda a noção de mundo é relativa: relativa à experiência do corpo e aos referentes do nosso ego. Ora a ruptura que o xamanismo faz com o mundo, ou melhor dizendo com o corpo, porque o deixa inconsciente na terra e vive experiências suprasensíveis no seu duplo imaginal, é com a nossa concepção materialista e positivista, pois seja qual for a religião e a tradição mágica a noção de mundo é definida em função do Nous, isto é, do Espírito. O Xamã é aquele que apreende e vive no mundo como dentro de um salão de múltiplos espelhos onde se reflecte a pluralidade infinita do Todo. Ele viaja por este espelhos de múltiplas ilusões e cosmologias que é eco da Grande Ilusão.

- Existem aplicações terapêuticas originadas em práticas e técnicas xamânicas?

No meado do século vinte grande parte dos antropólogos americanos acreditavam que o xamanismo era uma arte de curandeiro, de medicine-man vivendo numa tenda sioux nas Planícies Americanas. Como diz com ironia Andrei Znamensky no seu “The Beauty of the Primitive”: “de súbito a América do Norte estava povoada de xamãs”. Grande parte do movimento new age aproveitou esta crença inventada pelos antropólogos amadores e generalizou-a a todo o Xamanismo. Na verdade, figuras de liderança do Movimento New Age como David Spangler e Jane Roberts sentiam, com muita razão, que o ocidental necessitava de uma cura profunda para ser perfeito e viver feliz. O Rei Pescador das histórias do Graal ao contrário do que se pensa, e o mundo à nossa volta prova isso, ainda não foi curado. Tudo à nossa volta definha num materialismo grosseiro feito de avidez e esquecimento que nos assegura uma vida mediocremente feliz. Ora o Xamanismo tem um efeito de cura profunda: a de unir a dimensão animal recalcada no nosso inconsciente pessoal com a dimensão suprahumana da nossa consciência suprapessoal e o lugar dessa Coincidentia Oppositorum é o nosso eu de súbito ampliado à dimensão cósmica. È essa a cura que o Xamanismo traz. Quanto ao resto, isto é, às chamadas modas das terapias alternativas ao estilo de Sandra Ingerman e de seus discípulos, que pretendem enriquecer a psicologia convencional, é muitas vezes apenas uma reposição simplista em termos modernos de práticas de curandeiros e feiticeiros travestidos de xamanismo.

- Qual é a proposta iniciática do xamanismo?

A formação do xamã é essencialmente um processo iniciático no sentido em que o arranca do isolamento de sua consciência individual e desencadeia uma metamorfose cognitiva que o integra no cosmo e no divino. Neste sentido o xamanismo está mais próximo do neoplatonismo do que do gnosticismo porque embora não recusando o mundo ao estilo gnóstico eleva-o a uma dimensão sobrenatural lembrando o que Damascius, o último dos neoplatónicos, dizia sobre a chamada Terra Superior. Foi a partir do Xamanismo que provavelmente se universalizou o que chamamos hoje por processos iniciáticos e se estendeu depois do fundo da pré-história para todos os processos iniciáticos que surgiram posteriormente através da tradição hierática egípcia, da tradição órfica e pitagórica e das vias neoplatónicas. O Xamanismo com os seus processos de desmembramento, morte, descida ao submundo e ascensão ao supramundo até se concluir finalmente na reificação de uma vivência unitária e não dual, pode ser ilustrado por exemplo nos processos iniciáticos osirianos dos quais as práticas à volta de S. João Baptista e Simão, o Mago, foram obviamente seu sucessor. A essência do processo iniciático é uma experiência de metamorfose da consciência em que ela deixa de ser determinada pelos referentes prático-utilitárias de nossa personalidade para começar a ser determinada pelos impulsos inspirativos da nossa consciência espiritual.

- Xamanismo e Paganismo estão de algum modo ligados?

É impossível pensar o xamanismo sem uma interligação íntima ao Paganismo, em particular à sua dimensão animista e panteísta antes de ela ser liquidada pelos movimentos órficos. Eles foram os protótipos dos chamados Mistérios de Salvação que na fase final do Império Romano atingiram uma grande aceitação entre as classes cultas gregas e romanas, para quem já o paganismo panteísta e campesino era considerado uma forma obsoleta de espiritualidade. Essa transição foi possível porque a partir de um certo momento da história da humanidade, mais ou menos durante o período em que Platão resumia a tradição órfica e pitagórica nos seus diálogos, a chamada clarividência atávica, para usar um termo steineriano, estava em profundo declínio. Só nos países celtas, nórdicos e germânicos, se conservará até muito tarde, até ao séc XII Medieval, processos de vivência do Paganismo típicos do Xamanismo Ancestral. È que a essência do Paganismo é, na verdade, baseada na apreensão consciente e directa do Divino na Natureza, não só a Natura Naturata mas também a Natura Naturans, para usar uma terminologia de meu predilecto Scotus Erigena, isto é, a apreensão do Divino faz-se na transparência epifânica da Natureza. Porém, é nos neoplatónicas, sobretudo na corrente teúrgica criada por Iamblicus a partir das tradições egípcias e caldaicas, e na sua concepção da descida (Katabasis) e ascensão (Anabasis) ao Um, que se pode encontrar a redescoberta pelo Helenismo das suas raízes xamânicas num arco superior de consciência.

- O movimento xamânico parece ter uma vertente urbana cada vez maior, apelando sobretudo a jovens que não estão em contacto frequente com os elementos da natureza no seu lugar natural. Qual o lugar destas linhas no âmbito do xamanismo mais tradicional.

Vivemos numa civilização cujas raízes históricas nasceram a partir da emergência das primeiras cidades-estado na antiga Suméria e, mais tarde, na Grécia. A função da cidade foi a de permitir desenvolver uma autonomia da consciência em relação aos processos de participação mística nas Forças da Natureza criando leis autónomas e genuinamente humanas em relação às leis do mundo natural, que Platão dizia terem sido estabelecidas pelos Daimons na Era de Ouro de Cronus. Ora o que o Xamanismo Urbano tem, apesar de se ter desfigurado em pseudo-primitivismo de consumo e no carnavalesco New Age, uma espécie de Xamanismo Benetton, é a possibilidade de, sem perder o Passado, trazer Novos Mitos no contexto das vanguardas culturais. O Futuro é a culminação do Passado numa relação ourobórica transcultural. O xamã urbano deve ser um sonhador do homem futuro onde o tecnológico, o arcaico e o ecológico, se fundam numa nova maneira de viver e pensar. Não necessitamos de abandonar aquilo que nos dá a tecnologia, que no seu conceito de rede (web) e intercomunicação de todas as dimensões de realidade e dos seres tem a marca do poder xamânico. Contudo esse Xamanismo Urbano está por criar. Defendo um conceito de Urbano como um espaço de acasos objectivos, de palimpsesto glorificado na Arte do Insólito onde todas as arquitecturas e narrativas, raças e culturas, tribos e novas tecnologias se fundam umas nas outras numa convivência orgíaca-artística criando um Tapete onde o Maravilhoso se manifesta.


- Devido à decadência das práticas modernas e dos cursos “seja Xamã num fim-de-semana – Diploma incluído”, que levam as pessoas ao engano, o Instituto Hermético tem evitado abordar este assunto. A única excepção que fazemos neste campo em Portugal é o Gilberto, pela sua qualidade literária excepcional e inegável reconhecimento iniciático. Somos nós que somos uns irrecuperáveis chatos pedantes, ou no fim das contas vai dar tudo ao mesmo?

Eu não posso falar evidentemente pela In Hoc Signo e fico muito grato pela preferência de um movimento como o vosso pelo meu esforço de repensar esotericamente o xamanismo. O vosso esforço em restituir pela via da reflexão uma genuína dimensão esotérica a várias tradições está no mesmo caminho em que me esforço embora em campos diferentes como o do Paganismo. O que é importante salientar é que ninguém se torna ipso facto um xamã, no sentido em que eu o defino, isto é, com a capacidade de transferir a sua consciência no plano do duplo anímico de sua alma, só pelo facto de ir a uma das minhas workshops. O que eu realço é que a função do Xamanismo está muito para além dos processos de imaginação fantasiosa e da função curadora apresentados pelo chamado “core shamanism”. Considero que aquilo que Harner dizia quando se referia ao facto de se poder hoje ensinar uma pessoa a ser xamã em quinze minutos, quando o xamã da Antiguidade demorava longos anos, é uma afirmação ignorante ou, então, mera propaganda publicitária. De qualquer forma isso é muito grave pela forma simplista como reduz o Xamanismo, como se ensinar a xamanizar fosse o mesmo que ensinar a ser vendedor de seguros num fim-de-semana. É preciso muito esforço e auto-motivação pessoal para criar uma revolução radical da consciência profana na consciência xamânica e fazer regressar a percepção espiritual ao ser humano que vive num ambiente hostil, permanentemente bombardeado de tantas tentações, falsas promessas e ilusões. Ao contrário do Core Shamanism eu dou muita importância no meu ensinamento às dimensões espirituais da alma e da perfeição metaconsciente humana, dos processos iniciáticos e como eles podem ser reactivados na consciência moderna. Mas realço, também, que isso não é possível sem uma mudança radical de hábitos e velhos estilos de vida, o abandono de formas obsoletas de pensamento e a coragem de viver uma vida em perpétuo equilíbrio: entre momentos de imersão na Natureza e momentos de emersão na vida Urbana de nossa civilização.

- O que devo esperar encontrar num Seminário de xamanismo do Gilberto Lascariz?

A primeira coisa a lembrar quando se vai a uma workshop deste tipo é que as pessoas já não vivem em contextos de vida entrosados na Natureza e que detinham a propriedade ecosófica de facilitar a emergência do Xamanismo. Por isso, ele tem de se fazer de maneira diferente. Mas não se deve fazer cedências e dizer com soberba ingenuidade como fez Harner , volto a repetir, que hoje se pode aprender a ser xamã em quinze minutos enquanto no passado remoto se demorava vinte anos. As pessoas precisam de compreender porque as técnicas xamânicas funcionavam de forma diferente e mais intensamente no passado do que funcionam hoje e isso tem a ver com a nossa maneira de viver. Mas tem também a ver com a noção de “eu”, que não era a mesma da nossa, e com a noção de espaço e de tempo circular em que viviam. Ora eu defendo que se deve despertar essa Consciência Arcaica e dinamitar a carapaça egocêntrica do homem moderno, mas isso não é possível sem uma mudança por vezes radical dos velhos estilos de vida e suas crenças subliminais, como aliás todo o Processo Iniciático. Essa criação de um novo estilo de vida começa com a mudança radical de nossos paradigmas e referentes, que embora funcionam bem no contexto de nosso ego social e de nossa consciência egotrópica são, contudo, obstáculos no contexto da apreensão não racional do universo que abrange simultaneamente o Mítico e o Espiritual. É necessário criar um segundo pólo de consciência em equilíbrio com o pólo social e racional de nossa consciência diurna, um pólo interior centrado numa segunda pessoa, isto é, no chamado “xamã interior”. O que pretende o Xamanismo, para falar uma linguagem junguiana, é despertar a Função Transcendente do ser humano.

- O que devo esperar levar comigo para casa no final?

Eu posso garantir que mas minhas workshops se leva um conjunto de métodos corporais e visionários que se forem praticados regularmente podem fazer emergir uma Nova Personalidade, essa mais alargada e integrada. Mas eu também espero algo das pessoas. Espero de cada pessoa que honre os meus ensinamentos praticando os métodos que ensino de forma regular. Possa assim cada um e cada uma fazer emergir uma nova consciência suprasensível neste universo submerso na opacidade e no trivial.



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António Pedro S A G


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